De vez em quando eu pedalo em um pelotão. Eu amo a camaradagem dos ciclistas, a conversa, o aperreio daqueles que tentam encher o pneu antes do grupo sair, os cliques dos tacos, e claro, o vácuo do pelotão. Varias vezes digo para mim mesmo: “Eu sinto falta de andar em grupo”.
A magia acaba por volta dos 10km. A turma aumenta o ritmo, uma brecha já surge, então o grupo é quebrado, só para reagrupar no próximo contorno. Eu escuto vários gritos alertando um buraco ou outro problema na pista. De repente, não escuto mais nada para o próximo buraco, o maior de todos. Algum cara na frente está tentando fazer a sua maior média de velocidade em 30 segundos. Rodas ficam uma do lado da outra, freios acontecem a toda hora. De repente um cara na parte de trás entra na pista e rapidamente deixa o pelotão para trás sem nenhum motivo. Será uma fuga?!
Eu me arrependo de está ali e logo sinto saudades dos meus treinos sozinho ou com poucos amigos ou dos pelotões do passado (que nunca frequentei). Ninguém percebe o quão perigoso um treino desse é? Como mancha nossa reputação nas estradas? Existem regras claras de etiqueta, trânsito, segurança e bom senso ao se pedalar em grupo em uma via aberta. Alguém no grupo sabe essas regras? Quem é o lider?
Infelizmente não há líder e o aglomerado caótico de “ciclistas” não tem a mínima ideia de como se pedalar junto. Como um advogado do ciclismo, eu aceito e entendo as queixas de motoristas irritados, de policiais rodoviários, de jornalistas com suas matérias nos denegrindo, e ciclistas que se acidentaram. Isso precisa melhorar, mas os obstáculos são enormes.
Primeiro, todo mundo é um especialista hoje em dia. A internet e um powermeter não substitui 100000kms de experiência. Mas tente dizer isso a um forte ciclista de 30-40 anos de idade e com uma nova bicicleta de 20-30 mil reais. Ou, Deus me livre, a um triatleta! Ninguém quer ouvir o que tem que fazer.
Segundo, os ciclistas mais experientes só querem deixar os demais para trás e não serem incomodados. É tudo sobre o treino, o ego, ou pedalar com um grupo fechado de amigos fortes. Porém um pedal em grupo não é nem uma corrida nem uma seleção natural a la “Darwin”, onde os mais fortes sobrevivem. A medida que os ciclistas ficam melhores, eles procuram se destacar dos demais andando mais rápido e em bikes da moda. Porém, um ciclista, ao se torna mais forte, deve perceber duas coisas: 1) Sempre há alguém mais forte, e 2) Eles tem obrigações como líderes. Ciclismo não é uma escada sem fim, a cada passo aspirando ir pra cima, muita coisa se deixa em baixo. Ciclismo é como um clube e nós devemos tentar melhorar e expandir nossa sociedade.
Terceiro, diferentes pedais são anunciados pela velocidade média, mas a velocidade é apenas uma parte da equação. Essa abordagem faz com que a velocidade (e potência hoje em dia) seja a única medida para se julgar um ciclista e cria a falsa impressão que um ciclista forte é o que é bom. Quase qualquer um pode ficar rápido em uma bicicleta, porém poucos aprendem a ser elegante e cortês em cima da bike e com o grupo.
Quarto, andar de bicicleta também exige formação técnica. Bons nadadores, por exemplo, constantemente trabalham a forma e técnicas de natação. Da mesma forma deveriam fazer os ciclistas. Existem vários manuais ensinando os segredos do ciclismo. Mas pouca atenção é dada hoje em dia a esse outro lado do ciclismo, a pedalada perfeita e manuseio da bicicleta.
Antes da internet, antes de bicicletas hitech e antes de Lance, as coisas eram bem melhores. Aprender a pedalar necessitava uma formação! O objetivo era se tornar parte de um pelotão, não apenas um cara que é rápido em uma bicicleta. A associação a um grupo era o alvo, não ser o campeão local da Master. Você era convidado para um grupo se você mostrasse interesse e vontade de aprender. Você não era convidado caso contrário. Você aprendia as técnicas de andar em grupo diretamente do líder, que se interessava em pedalar próximo a você nas suas primeiras pedalas com a turma (E não próximo dos amigos, como os melhores ciclistas fazem hoje em dia). Algumas coisas que você aprendia:
- Pedalar alguns meses todo ano na coroa pequena.
- A tirar o seu bretelle imediatamente após cada pedal.
- A iniciar com uma bike simples, de preferência usada.
- A puxar o grupo sem mudar o ritmo.
- Exercícios para aprender a puxar com várias pessoas ao mesmo tempo;
- A fazer uma uma escalera quando aparecesse um vento cruzado;
- A pedalar nas montanhas;
- A manter sua linha em uma curva;
- A ficar em pé suavemente sem jogar a bike para trás;
- A dar para a pessoa a sua frente um pouco mais de espaço para que ele fique em pé em uma subida;
- A respeitar as regras de trânsito;
- A sinalizar os problemas na estrada (buraco, etc);
- A freiar menos, principalmente em um pelotão;
- A seguir a roda em frente, sem ficar do lado dela;
- A andar em linha única ou fila dupla, todos revezando; Os iniciantes sempre atrás.
- Etc.
O líder do grupo e seus substitutos levavam as regras da turma a sério, pois a segurança do grupo sempre dependia de você, o elo mais fraco. Se você não seguia as regras você era punido da pior maneira possível: ignorado. Se você as cumprisse, se tornava membro de algo espetacular, o Pelotão.
Tradução do texto de THE LOST ART OF THE GROUP RIDE (Peter Wilborn)

Muito boa essa materia Erico...tenho certeza que aprendi muito com seu post...valeu
ResponderExcluir